Você cresce, não tem mais bochechas fofas, não é mais a queridinha da vovó, não é mais a princesinha do papai e até o pobre do bicho papão te abandona; você perde os amigos imaginários, não vive mais cercada de pessoas que sorriem pra ti, que querem te mimar e fazer tuas vontades; você não pode mais simplesmente chorar pra não ir à escola, não pode mais morder as professoras quando se irrita e nem ser mau educada e dar desculpas de que é muito criança pra entender que certas palavras magoam; ninguém mais limpa suas lágrimas e te põe pra dormir dando beijinho na testa; passa a ser responsável pelo que cativou; você cresce, você erra, você aprende, você ganha, e você perde.

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“Qualquer dia desses eu saio sem destino, sento debaixo de uma árvore qualquer, com uma paisagem agradável. Vou escrever sobre você, sobre nós, sobre o que você significa pra mim. Vou te gravar em mim. Vou te gravar em mim para que em hipótese alguma eu me esqueça de você e o quão bem você me faz. Que eu não me esqueça de tudo o que aprendi com você, e todos os sorrisos que eu dei por você, com você. E te peço, me grave em você, pode ser como música, como lembrança, como uma carta… Mas me grave, e de maneira alguma me deixe desaparecer, pode me guardar num cantinho do seu coração, mas de nenhuma maneira me deixe ir embora.”

Família reunida = Eu trancado no quarto.


Só que ta doendo, ta doendo pra caralho.


Sou julgado dentro da minha própria casa.


Ela está mudada. Pensativa. Grossa. Calada. Fria. Ignorante. Quieta. Desconfia de tudo… Mas no fundo, ela só não quer ter o coração partido outra vez.


Ta escrito “me abandone” na minha testa?


Não vou falar com você, e nem é por orgulho. É que você não faz mais falta.


Sabe aquela coisa que gente tipo a sua mãe vive falando, pra ter cuidado com o que se deseja, porque isso pode se realizar? Então. Acho que eu finalmente compreendo o que essas pessoas vivem tentando dizer. Há tanto tempo que eu peço para que você esteja ao meu lado, embaixo de mim, junto comigo… Sei lá. Só que eu me esqueci de informar aos astros que seria ótimo se você estivesse consciente dos seus próprios atos e, assim, eu não precisasse ficar encarando o teto e tentando pensar em algo completamente diferente do fato de que você estava deitada no meu ombro, completamente esparramada por cima de mim, sem qualquer piedade do meu ser. E essa coisa de, apesar do momento, estar olhando para o teto, definitivamente não é minha. Eu quero olhar nos teus olhos e dizer que esse não sou eu, que eu já deveria estar tirando a sua blusa e não deixando opções para onde você fugir. Mas, pra isso, eu teria que abaixar meu olhar. E abaixar o olhar significaria perder o pouco de autocontrole que ainda me resta.

E é você, cara. Você não é o tipo de mulher com quem se faz isso.

Por esse exato motivo, mais que qualquer outra coisa, eu continuo respirando fundo e espero que você pegue no sono para que eu possa ir embora desse pesadelo terrivelmente maravilhoso que eu estou vivendo. Só o pensando de que amanhã você irá acordar e me odiar eternamente caso algo aconteça me impede de mandar todo o cavalheirismo para o inferno. Mas eu batalhei demais para readquirir mil vezes a tua companhia, e eu não posso perdê-la dessa forma. Acho que quero te dizer isso também, porque sei que tu já vai ter esquecido pela manhã e porque eu acho que, às vezes, me faz bem te dizer algumas coisas sobre a maneira como eu me sinto a seu respeito. Te ver nesse coma sentimental faz com que eu lembre de mim mais do que a maior parte dos momentos que passamos juntos ou separados. Mesmo que pareça bobagem, porque nem se compara a maneira como eu já fui. O teu coma sentimental é mais uma anestesia do que um coma – como se você estivesse ciente da dor, apenas preferisse deixá-la quietinha e indesejada.

O meu coma é tipo Branca de Neve: só acabou porque uma filha da puta resolveu me salvar.

- Henrique… – a vozinha arrastada de quem deveria ter dormido já faz tempo preenche o quarto e quase dói aos meus ouvidos. Tudo que vem de você dói em mim.

- Fala, amor.

- Por que você não me chama de amor em outros momentos? – você franze o cenho e eu rio da indignação infantil que teus olhos fazem.

- Porque amanhã de manhã você vai estar com dor de cabeça demais para lembrar de qualquer coisa que eu te diga. Então, eu meio que me sinto na liberdade de falar o que eu bem entender. Tipo te chamar de amor. Faz tempo que eu queria tentar isso. – eu sorrio ao ver a indignação se transformar em confusão.

- Mas eu não gosto de amor.

- Por que não, amor?

- Para de me chamar assim. – agora você tenta se levantar e ficar de cotovelos para me encarar e mostrar o quanto você está falando sério. Mas a tentativa é totalmente frustrada e eu tenho que te segurar até que você esteja firme o bastante. Obviamente, não sem antes rir da sua cara. O que só te deixa ainda mais puta. – Não, sério. Você não entende. Eu… – a língua se enrola e você tenta de novo. – Eu não gosto quando você me chama de amor. Não combina contigo e não fica bem quando eu vou te descrever pras pessoas, sabe? Eu não posso contar pras minhas amigas que você é um cafajeste que me chama de amor. Esses existem milhares. Eu prefiro sair gritando por aí que você é tão canalha que nem pra inventar apelidos você presta. Sei lá. Eu gosto de pensar que, no fundinho da tua alma, você tem algo de diferente dos outros canalhas que chamam milhares de garotas de amor.

Eu deveria me controlar, mas é engraçado demais te ver puta da cara e meio confusa pelo álcool para apenas deixar essa oportunidade de te estressar escapar.

- Mas amor é tão… Bonitinho. Quando eu te chamo de amor, a gente bem que podia passar por um daqueles casaizinhos chatos que se amam demais pra lembrar o nome um do outro.

- Foda-se. Eu prefiro nós.

- Achei que não gostasse de quem fala palavrão. – eu ri do sorriso malicioso que apareceu no seu rosto.

- Eu gosto de você.

Cara, sabe aqueles segundos infinitos em que você acha que o mundo poderia simplesmente acabar e tudo estaria bem? Em que você pensa que a Terra pode explodir e, ainda assim, você fecharia os olhos e dormiria feliz pra sempre? Eu passei a conhecer essa sensação. E uma voz bem baixinha me sussurrou: passou a entender porque ela odiava tanto quando você bebia, idiota. Essa é a sensação de amar alguém da cabeça aos pés e ouvir ela falando tudo o que sempre quis dizer e saber que a única recordação vai ser uma dor de cabeça fodida pela manhã. Agora me bateu a curiosidade de saber quantas foram as vezes que eu disse esse tipo de coisa pra ti, sem nem saber direito o que eu estava dizendo. Mas acho que foi de verdade, sei lá. Você é o tipo de bêbada que é igual sóbria. A diferença é que multiplica por mil todas as características normais. Então, toda sinceridade que você já tem, é quase sem peneira alguma agora.

- Quer dizer… Eu gosto mesmo, sabe? – você continua num devaneio contínuo que não me permite desviar os olhos de ti. Parece engraçado, mas mesmo bêbada você ainda fica nervosa, ou, pelo menos, é isso que aparenta pelo o seu peito subindo e descendo. Algo nada seguro, se quer minha opinião. – No início, eu achei que gostasse mesmo do perigo e tal. Daquele risco de nunca saber se você realmente gostava de mim ou só me queria na sua cama. Mas achei que não gostasse de você você, entende? Do seu jeito, voz, manias… Essas coisas todas. Achei que você fosse uma pessoa ruim, daquele tipo que a gente fecha os olhos pra tentar não enxergar o mal que faz pra nós e pros outros, mas no fundo sabe o que não vê. Isso faz algum sentido? – você riu.

- Surpreendentemente, faz. – eu rio junto.

- Pois é, mas eu descobri que, na verdade, eu gosto de você também. De algumas coisas, pelo menos. Sabe, Henrique… Você acha que é um cara mau e tudo mais, mas não é. Um pouco irritado e caindo um pouco pro lado da indiferença… Só que bom. Eu já te observei de fininho, sabia? Tipo, enquanto você dava comida pra um cachorro de rua porque achou que ninguém tava olhando. Ou nas três últimas vezes que você apenas me levou pra casa e não abusou de mim nem nada. Você sabe que poderia, não sabe? Olha pra mim – você fala como se eu tivesse desviado o olhar a qualquer momento. – Você sabe muito bem que, nesse estado, eu não me oporia a nada. – momento pensativo e reflexivo de uma você bêbada. – Talvez a algumas coisas. Mas nada que você fosse me pedir para fazer, eu espero. O que eu quero dizer é que… Eu acredito em ti, sabe. Óbvio que não é mais só isso, mas antes de tudo, você foi o melhor amigo que eu já tive. Ainda é. Talvez não o melhor, porque você fode com tudo bem seguido. Mas é o mais verdadeiro. Acho que essa é a ideia que eu to tentando passar.

Devo ter ficado uns bons cinco minutos quieto, olhando pros olhos escuros e meio brilhantes demais pelo álcool. Não sei o que foi que me deu, mas acho que essa, talvez, tenha sido a primeira vez que alguém me dizia alguma coisa dessas. Foi, definitivamente, o discurso mais embromado e baixo que eu já ouvi na minha vida – mas o mais sincero, também. Nunca, nunca mesmo, alguém tinha dito que acreditava em mim. As garotas, em geral, tinha mania de dizer que eu era o cara que fodia com a mente e o coração delas. Que elas gostavam disso em mim, que gostavam de ter um cafajeste pra reclamar pras amigas. Mas nenhuma delas (e, acredite, foram muitas) me olhou e disse que acreditava em mim. Que, no fundo, achava que eu tinha solução, algo de bom. De todas essas meninas que eu já levei pra cama, a primeira que eu não consigo é, também, a primeira que diz que eu fiz algo que ninguém mais fez. A primeira que me chama de melhor amigo, e não de canalha. Sei lá, eu acho que to meio sentimental hoje, mas eu juro que nunca me senti tão feliz na vida. Eu podia sair pela rua gritando que era o homem mais feliz do mundo, por ter conquistado não só o coração, mas a confiança e a lealdade da melhor garota de todo o universo e de todas as galáxias. Podia até mesmo colar uma faixa em você dizendo que era minha de corpo e alma. Alma.

- Mas você sabe que esse tipo de coisa… É só contigo, não sabe? – eu falo baixinho, pensando que, talvez, você já tenha dormido. – Você fez de um vagabundo, um homem aceitável. Acho que eu me resumo à isso: o antes e depois de te conhecer. De desprezível a “sim, eu posso segurar sua mão sem agarrar sua bunda” ou algo assim. Não é questão de não querer me aproveitar, e sim de que… Eu não quero que seja dessa forma, quando for com a gente. Eu descobri que, a contra gosto… Eu posso esperar. Pelo menos até que você esteja sóbria o bastante para que não seja sequer possível jogar qualquer tipo de culpa em mim. Ou que eu esteja bêbado o suficiente para lembrar, mas não ter o controle das minhas próprias mãos. Tanto faz.

A risada exageradamente feminina preenche o ambiente e eu sinto minha força de vontade morrer um pouquinho mais. Eu não sei se algum cara já te disse isso, mas, Deus, a tua risada devia ser proibida desse mundo. Não é normal alguém rir e fazer com que a sala inteira queira rir junto. Talvez seja só eu, mas sei lá. Ela é linda de qualquer jeito.

- Eu odeio quando você fala que tanto faz, sabia? Me lembra de quando você ficava falando tanto faz pra tudo. Não gosto disso.

- E qual o problema de falar tanto faz pra tudo? – provoco.

- A próxima coisa é você começar a dizer que a vida perfeita seria cercado de mulheres e dinheiro. E álcool também, caso possível. Obviamente, essas mulheres nunca seriam eu. Essa é uma vida muito fútil, sabia? Não sei se eu já cheguei a mencionar isso em alguma das conversas.

- Na verdade, já. Várias vezes. E não é uma vida fútil, é só uma escolha.

- Uma escolha vazia.

- Só por que não envolve um amor eterno e infinito?

Você mexe o nariz de um jeito pensativo e bonitinho que só faz quando tá bêbada ou morrendo de sono. Nesse momento, os dois.

- É. Acho que sim. Não, pera. Não é só por isso, porque eu não acho que tenha que ser eterno e infinito. Acho que isso é pleonasmo, até. – eu rio, porque mesmo sem conseguir formular frases você continua pensando em regras de português. – Acho que é vazia porque não tem ninguém pra se apoiar, entende? Essas vidas perfeitas a base de drogas sempre acabam desmoronando. A do Dexter desmoronou.

- E a vida dele não era vazia?

- Não.

- Então por que a minha seria, Ana?

- Você não tá me deixando terminar, Henrique. – um suspiro demorado – A vida dele poderia ter sido muito vazia, e terminou dessa maneira. O início e o fim foram vazios, mas, no meio, ele sempre teve a Emma por perto. Acho que isso fez a diferença na vida dele, mesmo quando eles eram só amigos. Acho que… Pera, o pensamento fugiu. – Silêncio. – Acho que essa sempre foi intenção do livro inteiro, sabe? Mostrar que até a vida mais vazia tem solução.

Eu ri baixinho.

- Não vou discutir sobre o sentido da vida e do universo com uma bêbada, Anna. Sem chances.

- Por que nããão? – Você fez um beicinho muito engraçado e fofinho e eu me inclinei e dei um selinho de leve. – Eu sou uma bêbada consciente. Eu sei muito bem o que eu to falando.

- Sim, sabe. Agora dorme e amanhã tu me conta sobre como tu lembra de tudo o que se passou essa noite.

Você revira os olhos, mas acho que finalmente aceita o fato de que o sono te dominou e se deita no meu ombro, suspirando fundo e leve. A boca forma um sorrisinho baixo e tranquilo, como se não houvesse nada no mundo que pudesse te preocupar. E eu fico ali, bobo, observando e pensando, da forma mais clichê possível, como asas poderiam se formar e você sair voando dos meus braços. Só de pensar assim, te seguro um pouco mais forte que antes. Esse pouco já foi suficiente para te acordar de sobressalto, e, meio preguiçosa, você me encara como quem reclama de ter sido acordada inutilmente. Eu sorrio como quem se desculpa, mas decido que preciso me aproveitar um pouquinho mais desse momento de futura amnésia por sua parte e emocional da minha.

- Ana?

- Fala, amor. – eu rio da ironia na tua voz.

- A minha vida nunca seria vazia, sabe. Você disse antes que nenhuma daquelas mulheres seria você, e realmente, é verdade. Eu nunca te transformaria na vagabunda da noite passada. Mas em momento algum isso significa que você não ficaria por perto. Você… Você sempre seria minha Emma. Você seria a garota que me salvaria, no final das contas. Acho que o sentido do livro não era mostrar que até mesmo a vida mais vazia tinha solução, e sim dizer que a solução só existiria se você encontrasse alguém que fizesse você querer ser salvo. Eu fico feliz por ter encontrado você. – eu suspiro e me pergunto se você já voltou a dormir ou sequer escutou o que eu falei.

Silêncio.

1, 2, 3.

- Isso significa que você leu o livro? – eu sorrio e espero que isso baste como resposta. Acho que bastou, porque o sorriso baixo se transforma quase num riso sem som, enquanto você se reposiciona no meu ombro e volta para um sono profundo e sem qualquer preocupação, além do esquecimento.

Ana F (salt-waterroom)


You never really can fix a heart